Método (passo 4) – poética

Introdução

É através da observação de como o imaginário bíblico (leia aqui) pode se desenvolver e a maneira como as obras de adaptação (leia aqui) com seus propósitos diversos (leia aqui) influenciam nesta construção, que a poética da OldNewBox se desenvolve. Pois, “o que muitas pessoas sabem ou pensam que sabem sobre a Bíblia geralmente resulta mais das interpretações artísticas das histórias bíblicas que eles viram do que da própria Bíblia” (EXUM, 1998, p. 157, tradução nossa).

Mas, o que é poética? Segundo Georgina Vidal, nas Artes Visuais é “a articulação entre a teoria da arte e a prática artística […] é o conjunto de trabalhos produzidos por um artista que tem algumas características em comum” (2023, p.31). É a junção entre a mensagem – que envolve pesquisa teórica – com as escolhas de estilo – quais materiais serão utilizados, a escolha do estilo etc. Grosso modo, é o equivalente de forma e conteúdo na literatura.

Em nossa poética, há uma metodologia que consiste na reprodução de ilustrações bíblicas buscando ser o mais fiel possível ao material original. Não para se propor como método correto, único ou definitivo, mas para analisar o quanto nosso imaginário se distancia ou se aproxima da Bíblia. Para tal, são três os pilares de produção:

  1. A Bíblia como material base;
  2. A arqueologia e história como ferramentas auxiliares;
  3. A ilustração digital como meio.

O escopo da pesquisa

Em seu Tratado, Manual Pires de Almeida diz:

“Não basta na pintura engenho e juízo, é-lhe também necessário o conhecimento e a notícia da maior parte das artes e ciências. É-lhe necessário a Teologia para seguramente poder descrever as coisas de Deus, dos anjos e dos santos; a História sagrada e profana para não enganar nos costumes das pessoas, ou dos sucessos; a Anatomia, para em seus lugares colocar os músculos, sem aleijar a figura; a Filosofia para exprimir muitos acidentes naturais; a Geometria para lançar as linhas; a Arquitetura para perfeitamente divisar as fábricas; a Cosmografia para representar os lugares; [etc]” (2002, p.112-113, grifo nosso).

Os artistas que propuseram representar a Bíblia buscando uma aproximação histórica tiveram sempre o desafio de obter conhecimento em áreas além de seu ofício. Andrea Mantegna (1431-1506) e James Tissot (1836-1902) são exemplos: o primeiro se debruçou no estudo sobre os romanos a fim de representar cenas do Novo Testamento (GOMBRICH, 2015, p.259), o segundo viveu por dez anos na Palestina a fim de compreender os costumes e cultura local (ANKELE, 2015, p.5).

Há um fator a ser considerado: o avanço constante das ciências fez com que parte das informações arqueológicas e históricas se tornassem obsoletas com o passar do tempo. Ao comparar as obras dos artistas citados, isso fica evidente – os dois tinham objetivos parecidos, mas viveram em tempos diferentes. Da mesma forma, atualmente há muito mais conhecimento em relação ao passado, entretanto, o futuro reserva para si novas descobertas. Mas isto não é necessariamente um problema, pois é na sucessão das obras que se nota o avanço das descobertas por meio visual. Para além disso, as obras de Mantegna e Tissot continuam relevantes à história da arte ao se destacarem em outros aspectos além deste.

Imagem 1 – Sarai é levada ao palácio de Faraó

James Tissot, gouache sobre cartão, 30,7 x 20,5 cm, cerca de 1896-1902, Jewish Museum.

Primeiro pilar: a Bíblia

Não encaramos a Bíblia apenas como um documento histórico-literário, a levamos em consideração também como revelação divina. Esta manifestação se fez em regiões e períodos específicos, com Deus se adaptando à cultura de seus escritores e leitores a fim de ser compreendido. “A Bíblia foi inspirada por Deus, mas sem violentar a característica de seu autor humano e sem eliminar seu contexto de vida e produção” (REINKE, 2019, p.336). Portanto, a encaramos como uma revelação manifesta em forma de literatura humana, não como algo produzido em um vácuo temporal. A atuação divina esteve em sintonia com as particularidades humanas (Hb 1:1-2; 2 Pe 1:20-21).

Isto posto, quando um texto é selecionado para ser ilustrado, é feito um estudo exegético que leva em consideração questões como língua original, gênero literário, contexto histórico etc., a fim de buscar representar visualmente o mais próximo daquilo que foi dito pelo autor. A prioridade está no respeito às descrições dadas, não em possíveis interpretações posteriores. Exemplo: há uma hipótese em que o monstro Leviatã serve como uma descrição poética e hiperbólica de um crocodilo (Bíblia de Jerusalém, 2002, nota de rodapé de Jó 40:25e). Em Jó 41:18-21, por exemplo, ele cospe fogo pela boca. Neste caso, a escolha artística aqui se dá em preservar as características dadas pelo autor, não a de reduzir a descrição. Assim, a imagem tem seu potencial total preservado.

Imagem 2 – Trecho de A Destruição do Leviatã

Gustave Doré, xilogravura, 19,4 x 24,4 cm, 1865, Museum Boijmans Van Beuningen.

Segundo pilar: a arqueologia e história

Os documentos históricos extrabíblicos e a arqueologia são ferramentas essenciais para uma melhor compreensão dos pormenores dos quais o texto bíblico não diz. Como toda obra literária, a Bíblia não descreve exaustivamente seus personagens, cenários e culturas, deixando uma série de lacunas das quais essas duas áreas do conhecimento podem auxiliar a preencher, afinal, “o alvo da arqueologia é descobrir, resgatar, observar e preservar fragmentos enterrados da antiguidade, e usá-los para ajudar a reconstruir a vida antiga” (CURRID, 2003, p.16). É como se a Bíblia fosse um esqueleto que dá sustentação e direcionamento, a história e arqueologia como os músculos que preenchem seus espaços.

“As informações da arqueologia […] apresentam um retrato preciso com detalhes de locais antigos, estruturas e vida cotidiana que não estão presentes ou não estão claros no texto bíblico. Embora a Bíblia seja uma revelação completa, ela não é um estudo exaustivo e, embora sua mensagem possa ser prontamente entendida em qualquer época, ela ainda é seletiva em seu material. Portanto, a arqueologia, como uma ferramenta interpretativa, pode ampliar o escopo do contexto bíblico e tornar suas antigas descrições e referências mais compreensíveis” (PRICE, 2020, p.24).

Porém, há uma questão: “a principal limitação da arqueologia é a natureza extremamente fragmentária da evidência arqueológica. Apenas uma fração da cultura material sobreviveu. […] Além disso, dos milhares de sítios antigos conhecidos que ainda sobrevivem, apenas uma fração foi pesquisada, e menos ainda escavada” (PRICE, 2020, p.22). Portanto, toda representação imagética da Bíblia não consegue ser completamente precisa, pois não temos à nossa disposição as peças completas do quebra-cabeça. Sobra ainda mais lacunas, das quais buscamos preencher com coerência em relação ao conhecimento disponível. Os músculos são preenchidos com pele, cabelo, unhas etc.

Imagem 3 – Fotografia de cerâmicas em uma unidade de escavação em An Son

Carmen Sarjeant, 2009.

Terceiro pilar: a ilustração

Como visto acima, mesmo na junção da teologia com as descobertas histórico-arqueológicas, as lacunas para uma representação visual nunca serão totalmente preenchidas. Sempre haverá o toque das escolhas interpretativas do autor: qual será o ângulo da pintura? Como se portarão os personagens? Que paleta de cores será utilizada? Quais materiais e estilo aplicar?

O propósito da OldNewBox é expandir o imaginário das pessoas em relação à Bíblia. Apresentá-la como um texto transcultural, repleto de visões e perspectivas que extrapolam tradições limitantes, referenciando outros povos e culturas, um texto onde pessoas comuns e criaturas aladas coexistem. Para isso, a linguagem visual escolhida tem como referência os quadrinhos, pois neste formato é possível chegar em resultados sem limites tanto no aspecto imaginativo como também de produção. Alejandro Jodorowsky, roteirista de cinema e quadrinhos, disse certa vez: “todos os filmes que eu jamais conseguiria fazer, farei em quadrinhos. Todos os quadrinhos que eu fizer são os filmes que eu jamais conseguiria fazer” (tradução nossa, veja aqui).

Nossa linguagem visual bebe de referências como Jean Giraud (Moebius), Mike Mignola, Tim Mcburnie etc. Artistas estes com uma característica em comum: o equilíbrio perfeito entre a complexidade das linhas sobreposta à aparente simplicidade das cores. Esta combinação traz além de beleza estética, mais rapidez no processo de ilustrar. Este fator é de extrema importância, já que em muitos casos quando uma cena bíblica é adaptada, é dedicado mais tempo à pesquisa teórica do que ao ato de desenhar em si. Outro meio que agiliza o processo é a mescla entre arte manual e digital. Thumbnails e rascunhos são feitos no papel, a fim de preservar o atrito que só a lapiseira riscando o papel proporciona. Em seguida o processo de finalização é transportado para o formato digital, garantindo fluidez na completude da obra.

É importante ressaltar: em tempos de avanço tecnológico irrestrito, a OldNewBox opta por não utilizar diretamente em nenhuma de suas obras o recurso da arte generativa, fruto de Inteligência Artificial. Entende-se que o avanço desta tecnologia é inevitável, portanto, seu uso torna-se razoável quando utilizada como ferramenta periférica, nunca como obra final. A produção das ilustrações, desde o rascunho até a finalização, se dá por meio das mãos de um ser humano. Primeiro porque há prazer e satisfação genuína no processo de criar, segundo porque o “imaginário” do algoritmo está programado a reproduzir imagens com paradigmas visuais já estabelecidos, estes aos quais nossa poética caminha em direção oposta.

Imagem 4 – Rascunho de HQ sobre Davi e Golias (páginas 3-4)

Matheus Ogalha, arte digital, 4.960 x 3.508 px, 2021.

Conclusão

“O exegeta bíblico e o artista têm muito em comum. Ambos passam horas ruminando sobre o texto, incitando, cutucando, questionando e ouvindo. Eles cerram os olhos e os arregalam novamente para tentar ver algo novo” (PARKER, 2014, p.390, tradução nossa).

No texto final de nossa série, foi possível compreender com detalhes como o estudo teórico se mescla com a prática artística na poética da OldNewBox. A junção dos três pilares – Bíblia, história-arqueologia, arte – tem como resultado todo o conteúdo disponível neste site. Para aqueles que chegaram até aqui, o nosso muito obrigado!

Referências bibliográficas:
  1. ALMEIDA, M. Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia: Tratado Seiscentista de Manuel Pires de Almeida. Tradução: MUHANA, A. 1. ed. São Paulo: Edusp; Fapesp, 2002.
  2. ANKELE, D. James Tissot: The Old Testament. 1. ed. Grover Beach: Ankele Publishing, 2015.
  3. BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
  4. CURRID, J. Arqueologia nas Terras Bíblicas: um manual destinado a despertar o interesse e a paixão pelo tópico. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003.
  5. EXUM, F. Lovis Corinth’s Blinded Samson. In: Beyond the Biblical Horizon: The Bible and the Arts. 1. ed. Leiden: Brill, 1998, pp. 152-167.
  6. GOMBRICH, E. A História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2015.
  7. PARKER, B. J. A vision of hope and fear: Creative research and Ezekiel 1. The Review & Expositor, [S.I], v. 111, n. 4, p. 390-400, Nov. de 2014.
  8. PRICE, R; HOUSE, H. W. Manual de Arqueologia Bíblica Thomas Nelson. 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.
  9. REINKE, A. Os Outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.
  10. VIDAL, G. Construindo a poética visual. 1. ed. Curitiba: Inter Saberes, 2023.
  11. ZAKARIN, J. Alejandro Jodorowsky to Make ‘Son of El Topo,’ ‘King Shot’ Into Comic Books (Exclusive) . The Wrap, 13 mar. 2014. Disponível em: https://www.thewrap.com/alejandro-jodorowsky-make-son-el-topo-king-shot-comic-books-exclusive/. Acesso em: 22 abr. 2025.
Imagens:
  1. Sarai é levada ao palácio de Faraó. Fonte: wikimedia commons.
  2. Trecho de A Destruição do Leviatã. Fonte: wikimedia commons.
  3. Fotografia de cerâmicas em uma unidade de escavação em An Son. Fonte: wikimedia commons.
  4. Rascunho de HQ sobre Davi e Golias (páginas 3-4). Fonte: acervo pessoal de Matheus Ogalha.
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