Método (passo 2) – adaptação
Introdução
A construção do método para a elaboração das ilustrações bíblicas da OldNewBox se divide em quatro passos, sendo os três primeiros de cunho estritamente teórico. É na compreensão de três conceitos – imaginário, adaptação e propósito – que se pavimenta o caminho para enfim, no último passo, iniciar-se a produção das ilustrações.
Esta série de artigos, dividida em quatro partes, é, portanto, destinada para aqueles que, além de consumir o material visual da OldNewbox, buscam se aprofundar nas motivações e intenções da mesma. Anteriormente, no primeiro texto desta série, foi observado o que é o imaginário, como ele se forma e o impacto deste na maneira como enxergamos o mundo ao nosso redor (leia aqui). Agora, no segundo passo, veremos superficialmente a diferença entre os meios artísticos, o processo de adaptação de um material original para outras mídias e o impacto das mudanças ocorridas nessa transposição.
Os diferentes meios de arte e suas particularidades
No livro Teoria da Literatura é dito que a arte em suas várias formas (música, literatura, artes plásticas etc.) tem em cada vertente um ritmo e estruturação diferente (WARREN; WELLEK, 1962, p.134-135). Isto se dá pelas características e limitações únicas de cada meio, afinal, para o espectador algumas formas de arte estão atreladas à visão, outras à audição, enquanto as demais na mescla dos dois sentidos. Temos ainda os meios que adicionam o tato, como a arte interativa ou até mesmo os games, onde o jogador se torna parte da experiência.
“Como as distinções entre as artes são distinções entre as direções sensoriais da expressão estética (visão, fala, audição), as artes visuais cristalizam um estado de espírito em seu ponto mais afastado, ali onde ele confina com as imagens das coisas. As artes verbais parecem, em vez disso, deter, captar a impressão incerta que um estado de espírito produz em nós antes de assumir aquela simplificação capaz de reconciliá-lo com o espaço e dele fazer uma imagem visual” (PRAZ, 1982, p.59-60).
A ideia é a de que meios distintos de arte captam em nós reações diferentes. As artes visuais tendem à contemplação, ao silêncio; a literatura nos leva às reflexões do íntimo do ser; a música nos comove, move e pode levar à dança; o cinema agrupa todas essas características em um conjunto só. Cada meio à sua maneira preenche em nós a necessidade pelo lúdico, pelo entretenimento, pela beleza.
“As cores e formas que uma experiência musical logre sugerir não devem ser confundidas com as cores e formas que a pintura e a escultura podem sugerir diretamente. […] Um estado de espírito expresso por via de uma das artes não pode ser compreendido plenamente através do emprego simultâneo e direto de todas as outras artes” (PRAZ, 1982, p.58).

Imagem 1 – O anjo da revelação
William Blake, aquarela, 39,2 x 26 cm, cerca de 1803-1805, Metropolitan Museum of Art – New York.

Imagem 2 – Canções de Inocência e Experiência – O Cordeiro
William Blake, 1794, William Blake Digital Materials from the Lessing J. Rosenwald Collection, Library of Congress.
O processo de adaptação
Mas, e quando alguém decide adaptar uma obra de arte para outro meio, é possível traçar paralelos exatos entre as expressões de arte a fim de se obter uma adaptação completamente fiel ao material original? Antes de partir para a resposta, é necessário primeiro compreender o que de fato é uma adaptação, e para isso, Comparato nos traz uma definição interessante:
“A adaptação é uma transcrição de linguagem que altera o suporte linguístico utilizado para contar a história. Isso equivale a transubstanciar, ou seja, transformar a substância. […] No momento em que fazemos nosso conteúdo e o exprimimos em outra linguagem, forçosamente estamos dentro de um processo de recriação e transubstanciação” (COMPARATO, 2009, p.314).
Se toda adaptação é uma recriação a partir de um material original, cada autor com seu imaginário particular trará um novo resultado artístico. Somado a isto, temos também as limitações de cada forma de arte, impossibilitando uma transposição exata entre os meios – descreva um retrato falado para dez ilustradores, e se obterá dez rostos diferentes. Toda adaptação é uma interpretação, e “representa o encontro de duas sensibilidades, a sensibilidade do autor da obra de arte e a do intérprete. Aquilo a que chamamos interpretação é, por outras palavras, o resultado da filtragem da expressão de outrem pela nossa própria personalidade” (PRAZ, 1982, p.33, grifo nosso).
Discorrendo sobre a criação de um roteiro adaptado para cinema, Comparato diz que existem diversos graus de adaptação entre uma obra original para o resultado cinematográfico. Há casos em que partes da história são cortadas ou adicionadas, personagens novos são criados ou os já existentes são omitidos (2009, p.315). Isto se dá porque o ritmo literário é diferente do ritmo cinematográfico. No conto – onde a característica principal é a síntese – o cineasta deve expandir o que está implícito. Já no romance, o filme deve condensar a história (2009, p.317-318). Dito isto, voltando à pergunta acima, uma coisa deve estar clara: a intenção de se fazer uma transposição exata entre os meios é uma tarefa impossível.
A semelhança repousa, então, no campo da essência. Apesar das diferenças concretas de cada expressão artística, é possível captar uma mensagem na mesma direção da obra original. Ora, Peter Jackson alcançou este feito com a trilogia O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, e mais recentemente Denis Villeneuve conseguiu o mesmo adaptando Duna, de Frank Herbert. “Os meios de expressão empregados pelo pintor e pelo poeta são diferentes, mas os dois têm em comum um gosto e uma mensagem” (PRAZ, 1982, p.60).

Imagem 3 – Trecho de Mestre Betty como Hamlet, diante de um busto de Shakespeare
James Northcore, óleo sobre tela, 55,9 x 40,6 cm, cerca de 1804-1806, Yale Center for British Art.
O impacto da adaptação
Segundo Robert Mckee, até o século XX houve três formas de se contar uma história: prosa (romance, novela, conto), teatro (peça, musical, ópera, mímica, balé) e a tela (filme e televisão) – cada uma destas possuindo suas características singulares. Para o autor, o destaque da prosa se dá em sua melhor capacidade em desenvolver questões internas, aquilo que se passa no íntimo dos personagens; o teatro, por sua vez, é ótimo na construção de diálogos e na poetização destes; já nas telas, o diferencial se dá na possibilidade visual de se desenvolver universos críveis, por mais fantásticos que sejam. Há nestes exemplos uma diversificação em nível interno, pessoal e extrapessoal (2006, p.342-343).
A partir desta variação interna-externa, pode-se inferir que quando uma obra é adaptada, o “raio sensorial” de seu conteúdo se expande, atingindo o expectador de formas antes não vistas. É notável que a experiência de alguém que lê uma obra e depois assiste a adaptação cinematográfica é diferente daquele que faz o processo contrário. No primeiro caso, a pessoa tende a formar seu imaginário próprio baseado naquilo que leu, já no segundo caso, as imagens do filme se solidificam na experiência do leitor, custando um esforço maior à mente para se formar novas imagens – se desenvolve aqui uma espécie de hibridismo imagético.
“Ver abrasar-se uma casa, morrer um homem, cair um raio, desfazer-se uma tempestade move mais vendo-se, que ouvindo-se. Não se veem tão bem os perfis e cores de uma poesia concertada, como os de uma pintura bem acabada” (ALMEIDA, 2002, p.79).

Imagem 4 – O incêndio da casa do capitão do porto, Honolulu
Autor desconhecido, óleo sobre painel, 1852, Honolulu Museum of Art.
A obra de caráter visual aparenta causar mais impacto à mente, e desta maneira, é um ótimo complemento ao material textual. Entretanto, corre o risco de agir em via contrária, enfraquecendo o caráter subjetivo da descrição textual e fornecendo uma imagem concreta única – a visão do autor da obra adaptada. Um possível antídoto? Consumir tanto a obra original como a adaptação, distinguindo assim o “canônico” do que foi adicionado ou omitido. É verdade, há casos em que a adaptação se torna melhor que a obra original.
Conclusão
No segundo passo desta série, foi observado que os meios de arte possuem características e limitações diferentes, e que a partir disso, toda adaptação de uma obra original para outra mídia torna-se uma recriação. O impacto dessas novas interpretações tem o poder de alterar nosso imaginário em relação à obra original, podendo o expandir ou contrair.
Entendendo que cada meio artístico estimula reações em campos diferentes, que a adaptação é sempre uma recriação em uma nova mídia, e que a Bíblia foi e continua sendo representada em todas as formas de arte, o quanto do nosso imaginário se distancia ou se aproxima do livro sagrado? A terceira parte desta série traz ainda outro elemento a essa questão, buscando investigar os propósitos de quem decide adaptar uma obra original e como isso afeta nossa relação com a mesma.
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- ALMEIDA, M. Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia: Tratado Seiscentista de Manuel Pires de Almeida. Tradução: MUHANA, A. 1. ed. São Paulo: Edusp; Fapesp, 2002.
- COMPARATO, D. Da criação ao roteiro: teoria e prática. 3. ed. São Paulo: Summus editorial, 2009.
- MCKEE, R. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. 1. ed. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
- PRAZ, M. Literatura e Artes Visuais. 1. ed. São Paulo: Edusp; Editora Cultrix, 1982.
- WARREN, A; WELLEK, R. Teoria da Literatura. 1. ed. Lisboa: Europa-América, 1962.