Método (passo 3) – propósito
Introdução
A construção do método para a elaboração das ilustrações bíblicas da OldNewBox se divide em quatro passos, sendo os três primeiros de cunho estritamente teórico. É na compreensão de três conceitos – imaginário, adaptação e propósito – que se pavimenta o caminho para enfim, no último passo, iniciar-se a produção das ilustrações.
Esta série de artigos, dividida em quatro partes, é, portanto, destinada para aqueles que, além de consumir o material visual da OldNewbox, buscam se aprofundar nas motivações e intenções da mesma. Depois da compreensão do que é o imaginário (leia aqui) e também do processo de adaptação como uma recriação (leia aqui), neste momento serão vistos alguns exemplos de períodos artísticos, os propósitos por trás de cada autor e a repercussão das obras de adaptação ao espectador.
Períodos artísticos
A fim de sistematizar e organizar a história, períodos são definidos quando características gerais de um povo se mantêm durante um espaço de tempo. Essa definição evidentemente pode variar porque a realidade é composta muito mais por um gradiente suave de transições do que por blocos de cores claramente distintas. Independente, essa categorização da história por capítulos é de suma importância para diversos fins, como os didáticos, por exemplo. Com a arte não seria diferente, ela recebe essa divisão por meio da observação das características estéticas e conceituais de cada movimento, entre outros fatores.
Além disso, cada movimento tinha em si um propósito e um objetivo, uma mensagem a ser compartilhada através de suas produções, e é de suma importância entender a sintaxe destes movimentos dentro de seus respectivos contextos a fim de uma compreensão melhor da obra em seu contexto original. Veja, por exemplo, a arte bizantina. Já de início, ela possui uma natureza distinta do pensamento ocidental. Nela, não se busca representar as imagens como um fato jornalístico, nem se tenta atingir uma fidelidade histórica. O ícone é uma expressão simbólica onde cada detalhe visual (seja roupa, poses de mão, cores etc.) possui um significado específico, que conduz o fiel à reflexão e contemplação de Deus e dos santos. (OLIVEIRA, 2019, p.32, 90, 117).
Uma pessoa nascida no ocidente, que não professa a fé católica e que desconhece a leitura dos ícones, dificilmente interpretaria estas pinturas da maneira como foi feita para ser. Por natureza, seu imaginário faria associações literais entre as imagens com o texto bíblico, como se as pinturas fossem uma representação fidedigna do relato narrado – mas este nunca fora o objetivo dos artistas deste movimento. É que no ocidente, a leitura das imagens bebeu dentre tantas fontes, da arte renascentista também. E esta possui características quase antagônicas quando comparada à arte bizantina. Baseando-se na redescoberta dos valores da Grécia Clássica, este movimento se pautou em um realismo idealizado através da busca de proporções e formas ditas perfeitas. Outra fonte de pensamento que fundamentou este movimento foi o antropocentrismo, onde o ser humano passou a ser o centro do universo. Para alguns pintores, os temas bíblicos eram apenas uma base onde poderiam desenvolver suas novas técnicas como o sfumato, o estudo de anatomia e o uso da perspectiva. (com base em GOMBRICH, 2015, p.287-323).
Neste período, grandes mestres como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael destacaram o heroísmo e a beleza idealizada, aqueles padrões muitas vezes inalcançáveis. Por outro lado, no período barroco, “Rembrandt não só se atreve a apresentar os homens tais como são – isto é, no geral, com muito pouco de belos – como, na realidade, escolhe seus modelos entre os mais ordinários e os menos atraentes deles. Representa as mulheres célebres da Bíblia e das lendas heroicas como dotadas de deploráveis anatomias. […] A arte da Renascença havia utilizado motivos góticos, submetendo-os ao princípio seletivo dos ideais clássicos de beleza. Rembrandt segue o caminho oposto” (PRAZ, 1982, p.139, 142).

Imagem 1 – A Virgem com o Véu
Rafael Sanzio, óleo sobre painel, 68 x 48,7 cm, 1500-1520, Louvre Museum.

Imagem 2 – O Retorno do Filho Pródigo
Rembrandt, óleo sobre tela, 262 x 205 cm, cerca de 1668, Hermitage Museum.
Os propósitos
Três movimentos consolidados – arte bizantina, renascentista e barroca – utilizaram do mesmo objeto base, a Bíblia, na reprodução de cenas memoráveis. Entretanto, com propósitos tão diferentes, chegaram a soluções divergentes não só em técnica, como também na mensagem por trás de suas pinturas. É importante destacar, não há necessariamente um movimento certo ou errado aqui, são apenas ênfases diferentes em características já presentes no texto base: a importância da contemplação e oração é destacada na arte bizantina, a beleza presente em Deus e na criação se vê na arte renascentista e a realidade simples, cheia de contrastes, é contemplada na arte barroca.
Atualmente, diversos fatores como a globalização e o fácil acesso à informação abriram a possibilidade de artistas individuais criarem seus próprios objetivos e linguagem, referenciando o antigo, mesclando-o e propondo novas soluções estéticas. É verdade, ainda existem estilos e grupos que são facilmente identificáveis, mas as barreiras entre as categorias são menos rígidas. Dentro deste contexto, ficou mais fácil para um indivíduo expressar suas ideias sem depender de algum método ou tradição artística. Há propósitos diversos, e o mesmo vale para as adaptações. Elas podem ir de encontro à proposta do material original, trazer uma nova perspectiva ou até mesmo a confrontar. Não há uma forma correta e definitiva de adaptação, mas sim, objetivos diversos.

Imagem 3 – Coroa de Espinhos de Jesus
Autor desconhecido, grafite. Fotografia de Leonski Oh Leonski, 2008, West Pier Brighton.
Se tratando de roteiro para cinema, Comparato descreveu alguns graus de fidelidade de uma adaptação em relação a um material original, e é razoável dizer que esta categorização se enquadre também em outros meios artísticos. Segue resumo abaixo:
- Adaptação propriamente dita – busca ser o mais fiel possível à obra original, sem alteração na história, tempo, localizações ou personagens;
- Baseado em – a história se mantém íntegra, mas o final pode ser alterado, assim como o nome de personagens e algumas situações;
- Inspirado em – a obra original é tomada como ponto de partida, mas a história é desenvolvida em uma nova estrutura;
- Recriação – a trama principal é apoderada, e a partir dela há um trabalho livre de transformações em relação aos personagens, tempo, espaço e estrutura;
- Adaptação livre – não há alteração na história, personagens, tempo etc., mas explora a obra original através de uma ótica particular, um novo ponto de vista dado pelo roteirista (2009, p.315-316).
A adaptação é como um filho criado pelos pais que ao atingir a maioridade passa a tomar suas próprias decisões. Alguns filhos seguem estritamente o legado dos pais, outros se mantêm fiéis ao mesmo tempo que fazem suas próprias escolhas, enquanto outros se tornam o completo oposto da expectativa parental.
Imaginário, adaptação e propósito
No final do texto anterior, foi comentado o fenômeno de quando uma adaptação visual sobrepuja a obra original escrita, modificando o imaginário do espectador em relação ao que primariamente havia sido descrito em palavras. Este acontecimento evidentemente ocorre também com a Bíblia e suas respectivas adaptações, afinal, através de um período longo de séculos e mais séculos, foram diversos os propósitos nas adaptações do texto. Somado a isto, vemos que em diversos períodos históricos, grande parte da população cristã não tinha acesso ao texto sagrado, muito menos era alfabetizada. O aprendizado era feito através da leitura de pinturas, esculturas ou no ouvir atento de uma missa ou pregação (GOMBRICH, 2015, p.135).
Mesmo hoje, com um vasto acesso à Bíblia, se tem a impressão de que nosso imaginário é muito mais moldado pelos materiais adaptados do que pelo contato direto com o texto. Uma criança nascida em lar cristão inicialmente irá ouvir sobre as narrativas de sua crença familiar através de um filtro infantil, vai entrar em contato com bíblias ilustradas, assistirá desenhos bíblicos etc. – todas essas formas legítimas e benéficas de se apresentar o texto, diga-se de passagem. Após a alfabetização, em um desenvolvimento saudável, finalmente terá acesso direto às Escrituras, e se posta sob uma boa teologia, aos poucos avançará cada vez mais na compreensão do texto, tendo o poder de distinguir o canônico da licença poética.
Entretanto, não é muito bem isso o que acontece na realidade. Uma pesquisa da Lifeway research em 2019 aponta que nos Estados Unidos apenas 32% dos fiéis leem a Bíblia diariamente, 27% o fazem algumas vezes e os 41% restantes leem em uma frequência muito baixa (veja aqui). Ou seja, quase metade dos fiéis americanos praticamente não possuem contato direto com o texto de sua fé, podendo ser inferido que boa parte daqueles que creem tem seu imaginário bíblico moldado mais pelas obras terceiras do que por seu texto sagrado. Já aqueles que não partilham da fé e que não possuem interesse direto pelas Escrituras, terão ainda mais seu imaginário moldado através do “ouvi dizer que” do que pelo que de fato foi dito.

Imagem 4 – Leitura
Almeida Júnior, óleo sobre tela, 95 x 141 cm, 1892, Pinacoteca de São Paulo.
Conclusão
No penúltimo texto desta série, foi descrito sobre alguns períodos artísticos relacionados ao cristianismo e suas diferentes ênfases, também sobre diferentes propósitos e os graus de adaptação. Por fim, foi constatado que em muitas vezes a obra de adaptação pode sobrepujar a obra original no imaginário do espectador, inclusive em relação à Bíblia.
Tendo estes três conceitos – imaginário, adaptação e propósito – introduzidos, e compreendendo a inter-relação entre eles, é possível agora descrever a poética, ou seja, a pesquisa artística da OldNewBox. Esta sendo abordada no último texto desta série. Nos vemos lá!
Próximo texto (4/4)
- COMPARATO, D. Da criação ao roteiro: teoria e prática. 3. ed. São Paulo: Summus editorial, 2009.
- GOMBRICH, E. A História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2015.
- LifeWay research. How often do you read the Bible? Disponível em: https://research.lifeway.com/2019/07/02/few-protestant-churchgoers-read-the-bible-daily/. Acesso em: 17 abr. 2025.
- OLIVEIRA, C. O Mistério de Cristo I: um encontro entre a iconografia e a Lectio Divina. 1. ed. São Paulo: Movimento da Transfiguração, 2019.
- PRAZ, M. Literatura e Artes Visuais. 1. ed. São Paulo: Edusp; Editora Cultrix, 1982.